sexta-feira, 27 de março de 2020

Já faz quase uma semana. Foi na sexta passada, depois que me perguntaram como estou e eu respondi o que sentia naquele momento. Disse que pouca coisa mudou, que minha rotina já era bastante caseira, sempre atarefada com demandas da casa e dos filhos pequenos. Dali em diante comecei a descida. Lembrei do caminho pela estrada mais sinuosa e menos movimentada que leva até a escola dos meninos. Lembrei que nesta época do ano as mudanças na natureza são radicalmente belas, as árvores recomeçam a ter folhas novinhas e brilhantes, o caminho se enche de flor, as vinhas recuperam o aspecto esverdeado e mesmo muito ao longe a paisagem é de diversos tons de verde, algo que dura só até uma parte do verão. 

Pensei em quão precioso é sair de casa nestes dias e encher os olhos de vitalidade. Um estoque que precisa durar até os dias mais gélidos do inverno, quando escurece às cinco ou cada vez mais cedo e o vento corta cada vão de pele que encontra.

Pensei na figueira, nas amoreiras em flor. Pensei na falta de horizonte de anos atrás, quando fui engolida pela cidade grande e achava bem normal "se matar de". Se matar de trabalhar. Se matar de ficar no trânsito. Se matar de solidão em meio a uma multidão. Tudo era excessivo. Era normal ser excessivo.

Depois disso foram os grupos. A necessidade de estar junto mesmo estando longe. Depois veio a angústia de perceber que a narrativa é múltipla, torta e enviesada. E então fui ruindo. Não consigo olhar pela janela sem enxergar um pedaço do caos. O motorista a passar álcool em gel nas mãos e no volante, a fila da farmácia que só acaba quando o expediente se encerra. 
Ontem foi meu filho mais novo que perguntou quando a quarentena acaba. Hoje foi o mais velho. Ia durar duas semanas. Pois é, ia. Então vai emendar com as férias de páscoa. Pois é, vai. Que dia que a vó e a tia vem mesmo? Não sei filho. Não sei.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

meus olhos enchem d'água e desta vez sei bem que aqui estou
olho e penso nas coisas que eu tinha
olho de novo e penso que o que importa não são as coisas
é estar aqui
penso mais e descubro que estar aqui é melhor que lá porque não preciso ver tanta desigualdade
não que ela não exista aqui
só parece menos agressiva
daí os olhos enchem d'água
angústia de não poder cuidar de tudo e todos
um dia um português me disse que o brasil se quedou com o pior dos portugueses
carecia de lá ter mais gente séria a cuidar de todas as gentes

(
a seriedade não consiste no ar sisudo e roupa na estica - pensamento tão raso
)



daí eu tinha uma professora que cortava a etiqueta de todas as roupas que usava
e jamais usava roupas com estampa da marca
e nos meus onze ou doze anos isso parecia ridículo
não sou paga por eles pra lhes fazer propaganda
dizia ela
hoje eu agradeço imenso por essa mulher que passou na minha vida
entendo tudo o que ela dizia

quinta-feira, 7 de julho de 2016

um sentimento muito louco de que dentro de uma casa qualquer país pode ser o meu país
o que me diz que estou em portugal e não no brasil o que é?
as infindáveis horas de vôo, o cansaço, meu filho que dorme pesado ali no quarto há horas ou o relógio que diz que aqui são nove e vinte e quatro da noite com céu claro ainda versus a sensação de que não é isso tudo ainda?
::no brasil ainda são cinco e vinte e cinco da tarde::


..e vem bem a calhar que a mudança da família toda agora se resuma a oito malas e algumas mochilas logo depois de reler a postagem anterior..

sábado, 27 de fevereiro de 2016

meu coração já não cabe em mim
nem meus livros
minhas roupas
meus discos

quanta necessidade de meu a gente tem
não sei pra que isso

minha mudança cabia numa mala
depois numa caixa
depois em algumas

desde a primeira vez que entrou num caminhão
a bicha não parou mais de crescer
agora eu olho e tento decifrar nas coisas
o que meu me define
e lembro da bonequinha de luxo numa revista capricho
::porque conheci cinema primeiro em revista::
eu não quero possuir coisa alguma até que saiba que encontrei o lugar onde eu e as coisas pertencemos
eu não sei onde fica esse lugar
mas sei exatamente como ele é

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

e aquelas perguntas que nunca te fiz
faço para quem
uma vez que não estás e ao que parece  nunca estarás por aqui

tanta gente que
- de verdade -
não existe

eu insisto só
e existo
insisto
resisto

queria saber por que não se supera
logo
de uma vez
e fico nessa novela mental

devaneio
devaneias
a sós
e pelos cantos
que cantas

quem sois
quem sou
que somos
se nunca fomos

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

acho que finalmente entendi que tivemos pouco tempo no início
ainda não havia uma parceria e um modo de agir quando caímos no meio do furacão
dessa forma, não houve um anular-se porque não havia base sólida
agora não temos pra onde voltar

essa falta de chão me deixa tão oscilante
nem posso dizer que você mudou

se vamos seguir adiante
precisamos ter em mente a única certeza do início
nascemos um para o outro

agora que o encontro já se fez
vamos construir o que é só nosso desde agora